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Segundo maior arquipélago fluvial do mundo tem controle de acesso de pessoas dificultado

Rio Negro. A unidade de conserva√ß√£o virou parque em 2008, mas at√© agora as restri√ß√Ķes oficiais √† entrada de turistas permanecemFoto: Marcelo PiuCart√£o-postal das belezas da Amaz√īnia e segundo maior arquip√©lago fluvial do mundo, as Anavilhanas s√£o um mar de contradi√ß√Ķes. Com 30% de sua √°rea em Manaus, uma das cidades-sede da Copa do Mundo (os outros 70% est√£o em Novo Air√£o), a unidade foi eleita a representante amaz√īnica do Programa Parques da Copa.

Mas, segundo um plano de manejo concebido em 1999, na época em que a unidade ainda era uma estação ecológica, o acesso às 400 ilhas, na entrada do Rio Negro, seria permitido só a pesquisadores que preenchessem um formulário solicitando a visita e informando seu propósito. A determinação ainda vigora, a despeito de as Anavilhanas terem se tornado parque em 2008. A regra persiste, embora a própria administração do parque queira derrubá-la.

A medida ignorou o fato que os 350 mil hectares do parque servem como hidrovia para entrada na Amaz√īnia. Controlar o seu ingresso √© praticamente imposs√≠vel. Segundo uma estimativa feita com dados fornecidos por operadoras de turismo, 30 mil visitantes passariam anualmente pelo arquip√©lago.

Com a transformação em parque, em teste, qualquer visitante pode navegar entre suas ilhas. Só falta mudar a legislação Рalgo que não deve ocorrer tão cedo.

– Temos apenas uma portaria que autoriza temporariamente a visita√ß√£o a certos pontos das Anavilhanas – explica Priscila Santos, chefe do parque. – E recebemos somente R$ 800 mil anuais, boa parte vai para a manuten√ß√£o das lanchas, por exemplo. Se consegu√≠ssemos autoriza√ß√£o para cobrar ingressos, ter√≠amos recursos para elaborar um plano que permita o uso p√ļblico da unidade.

A administração do parque também quer regulamentar as mais de 60 comunidades indígenas e ribeirinhas estabelecidas há séculos nas margens do Rio Negro. Todas teriam que concordar com um termo de compromisso sobre a pesca de subsistência. Este documento detalharia que espécies de peixe podem ser retiradas da água, em que quantidade e em qual período do ano.

РQuando esta unidade de conservação foi criada, ninguém lembrou dos índios Рreconhece Priscila. РAgora, queremos regulamentar a pesca e resolver um conflito histórico. Afinal, quando estas pessoas entram no rio, estão dentro de nossos limites.

O Instituto Chico Mendes de Conserva√ß√£o da Biodiversidade (ICMBio), ent√£o, informaria √†s comunidades que esp√©cies podem ser capturadas em cada esta√ß√£o. A miss√£o parece invi√°vel devido ao isolamento de algumas comunidades ind√≠genas. Um exemplo √© Concei√ß√£o Cordeira Pedrosa, de 64 anos, do povo tucano. Ela sequer sabe quem √© a presidente da Rep√ļblica.

– Sa√≠mos de S√£o Gabriel da Cachoeira (a 700 km de dist√Ęncia) porque l√° n√£o tinha mais peixe – lembra a √≠ndia, que vive com o marido e tr√™s filhos. – Era dif√≠cil sobreviver. Aqui estamos bem, pescamos o que precisamos, gostamos de ficar sozinhos.

Priscila também está quase solitária. Apenas ela e outro analista são responsáveis pela fiscalização de todo o parque. À frente da unidade de conservação, eles já flagraram até policiais militares traficando animais silvestres. Entre as outras atividades ilegais frequentemente registradas estão a caça e a extração de madeira e de areia dos rios.

Anavilhanas divide, com outros três parques, a mesma sede Рuma pequena casa em Novo Airão. O estabelecimento precisa de reformas, o alojamento cheira a mofo e as bases avançadas de fiscalização são precárias. Não há infraestrutura para receber turistas, como um centro de visitantes, uma torre de observação e a sinalização de áreas de reprodução de espécies.

РA demanda só aumenta, porque o turista que chega a Manaus quer ver a natureza, e não a cidade Рargumenta Priscila. РOs impactos são maiores em Anavilhanas, porque esta é a unidade de conservação mais próxima da capital do Amazonas. Ter apenas duas pessoas para administrar um arquipélago deste tamanho é uma indecência.

Coordenador de projetos do Instituto de Pesquisas Ecol√≥gicas – que atua nos biomas Amaz√īnia, Pantanal e Cerrado -, Marco Ant√īnio Lima recomenda que os gestores do parque busquem outras formas para consolidar Anavilhanas como polo tur√≠stico.

– Cobrar ingresso n√£o adianta, porque h√° numerosas entradas. Al√©m disso, o dinheiro vai para um caixa √ļnico, e √© distribu√≠do entre outras unidades de conserva√ß√£o – lembra. – Outro problema √© que o parque √© t√£o grande, que o turista fica desorientado e n√£o consegue ver animais. Se houvesse um guia, preferencialmente bil√≠ngue, o visitante teria as informa√ß√Ķes necess√°rias.

Para Lima, a unidade também deve procurar parcerias com a iniciativa privada e criar projetos que atraíssem financiadores estrangeiros:

РMas, considerando que só dois funcionários são responsáveis pelo parque inteiro, eles já fazem milagre.

http://oglobo.globo.com/ciencia


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