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Atum de cativeiro abre uma nova fronteira no mercado de peixes

Atum criado em cativeiro sendo retiradoAté pouco tempo, criar atum era considerado impossível, mas agora o negócio está começando a decolar como parte de uma transformação mais ampla na aquicultura que está revolucionando o suprimento mundial de alimentos.

‚ÄúRecebemos tantas encomendas hoje em dia que estamos pegando os peixes antes de dar a eles o tempo ideal para crescer‚ÄĚ, diz Tokihiko Okada, um pesquisador da Universidade de Kinki de 57 anos, que √© acad√™mico e empres√°rio que possui uma empresa que cria atuns em cativeiro. Agora que um boom no consumo mundial est√° esgotando as popula√ß√Ķes naturais de peixes, a demanda est√° sendo atendida, cada vez mais, pelos animais criados em fazendas de piscicultura.

Em 2012, peixes criados em cativeiro representaram uma parcela recorde de 42,2% da produ√ß√£o mundial, comparado com 13,4% em 1990 e 25,7% em 2000. Nada menos de 56% do consumo mundial de camar√£o j√° vem de cria√ß√Ķes. O cultivo do salm√£o do Atl√Ęntico, que s√≥ come√ßou a s√©rio em meados dos anos 80, j√° responde por 99% da produ√ß√£o mundial ‚ÄĒ a ponto de atrair cr√≠ticas por poluir os sistemas h√≠dricos locais e transmitir doen√ßas aos peixes selvagens.

At√© recentemente, o atum de barbatana azul do Pac√≠fico resistia ao cultivo em cativeiro. Os peixes podem pesar at√© 450 quilos e percorrem os mares numa velocidade de at√© 50 quil√īmetros por hora. A enorme criatura √© temperamental e se perturba facilmente com a luz, ru√≠dos e mudan√ßas na temperatura da √°gua. O atum dispara pela √°gua em linha reta, o que o torna suscet√≠vel a colis√Ķes fatais no cativeiro.

Os japoneses apreciam tanto esse peixe que o chamam de ‚Äúhon-maguro‚ÄĚ ou ‚Äúatum verdadeiro‚ÄĚ. Outros o chamam de ‚Äúo Porsche do mar‚ÄĚ. Num leil√£o de peixes em T√≥quio, um √ļnico atum foi vendido por US$ 1,5 milh√£o, ou US$ 6.600 o quilo.

Tudo isso est√° colocando a preserva√ß√£o da esp√©cie em perigo. Os estoques nos mares equivalem atualmente a menos de 20% do pico registrado no in√≠cio dos anos 60, segundo c√°lculo de um comit√™ governamental internacional que monitora a pesca do atum no Pac√≠fico. Ele estima a popula√ß√£o selvagem atual em 44.848 toneladas, ou cerca de nove milh√Ķes de peixes, um recuo de quase 50% nos √ļltimos dez anos.

O declínio foi exacerbado pelos esforços anteriores de criar atum. Os pescadores frequentemente apanham peixes jovens no mar e os criam em viveiros, prática que encurta o ciclo de reprodução ao retirar do mar uma grande parte da nova geração.

Cientistas da Universidade de Kinki começaram a estudar piscicultura após a Segunda Guerra Mundial, num esforço para aliviar a escassez de alimentos. Em 1969, muito antes de o mundo começar a apresentar forte demanda por sushi e sashimi e exigir fatias frescas de atum gordo, a universidade embarcou numa tentativa de domesticar o atum. Seu objetivo era completar em cativeiro todo o ciclo de reprodução do peixe.

Atum em comercio no JapaoDois cientistas da Kinki lan√ßaram-se ao mar com pescadores para capturar esp√©cimes jovens para criar em cativeiro. ‚ÄúN√≥s, pesquisadores, sempre quisemos criar o atum de barbatana azul porque √© um peixe muito grande e veloz. √Č muito especial‚ÄĚ, disse um dos cientistas, Hidemi Kumai, agora com 79 anos. ‚ÄúSab√≠amos desde o in√≠cio que ia ser um desafio enorme.‚ÄĚ

No mesmo instante em que os pesquisadores tiraram da rede alguns peixes jovens, a pele começou a se desintegrar e eles morreram. Foram necessários quatro anos só para aperfeiçoar ganchos delicados e de liberação rápida próprios para apanhar os atuns jovens e transferi-los para os viveiros.

Em 2011, a Universidade de Kinki perdeu mais de 300 peixes adultos do seu estoque de 2.600 animais quando um tsunami deixou a √°gua turva, fazendo os peixes entrarem em p√Ęnico e se atirarem contra as redes. No ano passado, o preju√≠zo veio de um tuf√£o que dizimou as reservas.

Demorou quase dez anos para as f√™meas capturadas na natureza come√ßarem a desovar nos viveiros de pesquisa da Kinki. Mais tarde, por√©m, em 1983, elas pararam de desovar, e durante onze anos os pesquisadores n√£o conseguiram descobrir a causa do problema. Os cientistas agora atribuem essa interrup√ß√£o da desova √†s oscila√ß√Ķes na temperatura da √°gua ao longo do dia.

No ver√£o de 1994, as f√™meas desovaram novamente. Os pesquisadores colocaram cerca de 2.000 filhotes num tanque em terra firme. Na manh√£ seguinte, a maioria tinha morrido. Os cientistas acabaram concluindo que luzes fortes e repentinas de carros, fogos de artif√≠cio ou raios faziam os peixes entrar em p√Ęnico e colidir uns com os outros ou contra as paredes. A solu√ß√£o foi manter as luzes acesas sempre.

Por fim, em 2002, a equipe da universidade se tornou a primeira no mundo a criar em cativeiro atuns de barbatana azul de pais também nascidos em cativeiro. O ciclo se completou, mas a taxa de sobrevivência continuava baixa.

O pa√≠s com maior risco de uma escassez de atum era o Jap√£o, que consome 80% do volume pescado no mundo, ou cerca de 40.000 toneladas anuais. Tradings japonesas com grandes opera√ß√Ķes de pesca, como Mitsubishi Corp. e Sojitz Corp., come√ßaram a se interessar pelos pesquisadores da Universidade de Kinki.

Entra em cena Taizou Fukuta, que trabalhava na Toyota Tsusho Corporation, uma trading afiliada √† montadora. Depois de assistir a um document√°rio sobre o projeto da Kinki de cria√ß√£o de atum, ele prop√īs criar um neg√≥cio de piscicultura num concurso interno de ideias para empreendimentos promovido pela Toyota. Fukuta venceu o concurso e, com US$ 1 milh√£o em capital inicial, come√ßou a visitar a Kinki e conversar com Okada, o respons√°vel por pesquisas sobre atum na universidade. Depois de muitas visitas, o acad√™mico finalmente concordou em cooperar com a Toyota, em 2009.

A Toyota financiou a constru√ß√£o de instala√ß√Ķes maiores, onde os alevinos criados nos laborat√≥rios da universidade poderiam ser criados em grande quantidade durante quase quatro meses. Nesse ponto, os peixes jovens j√° s√£o est√°veis o suficiente para serem vendidos a fazendas de piscicultura comercial, onde s√£o engordados durante at√© quatro anos e vendidos para o abate.

atum03Fukuta trocou seu emprego de escritório por uma pequena ilhota próxima à ilha de Kyushu, no sul do Japão, onde o clima ameno é ideal para criar alevinos. Ele convenceu os pescadores locais a arrendar para a sua empresa o direito de armar dezenas de viveiros no mar.

A primeira remessa de filhotes da Universidade Kinki veio de caminhão e acabou tendo perda de 90%. As remessas seguintes seguiram de barco. Quando muitos peixes morreram com a chegada do inverno, o empresário procurou uma fábrica de ração para desenvolver um alimento artificial que mantivesse os peixes aquecidos.

Mas Fukuta perdia ainda mais peixes na preparação para despachá-los aos compradores. Não era possível transferi-los para o porão de um barco sem fazê-los se chocar com força nas paredes da embarcação. Foi inventado então um funil gigante, feito de material liso e flexível, para direcionar os peixes.

Depois de alcan√ßar uma venda anual m√©dia de 20.000 peixes jovens nos √ļltimos tr√™s anos, a produ√ß√£o da Toyota deve subir para 40.000 no ano que vem. Isso complementa a capacidade da universidade, que produz uma quantidade semelhante de peixes. Juntas, a Toyota e a universidade poderiam atender a quase 20% da demanda das fazendas de atum japonesas por peixes jovens.

Atualmente, mais ou menos um ou dois de cada 100 alevinos de atum cuja origem s√£o as ovas cultivadas na Kinki sobrevivem at√© a idade adulta, em compara√ß√£o a somente um em v√°rias centenas alguns anos atr√°s. Por outro lado, s√≥ um1 em cada 30 milh√Ķes de alevinos nascidos de ovas na natureza sobrevivem at√© a idade adulta.

The Wall Street Journal


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