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Ber√ß√°rio do rio S√£o Francisco seca e deixa tr√™s milh√Ķes de peixes mortos na Bahia

No leito seco da Lagoa Itaparica, a maior lagoa marginal do rio S√£o Francisco, peixes e mais peixes mortos estendem-se pelo ch√£o. Barcos e canoas encalhadas comp√Ķem o cen√°rio do que antes era um grande espelho d’√°gua onde nadavam surubins, curimat√£s e dourados. A mat√©ria √© do Jornal Folha de S√£o Paulo, publicada na edi√ß√£o dessa sexta-feira (6).

Com 2.200 hectares de extens√£o, a lagoa fica dentro de uma √°rea de prote√ß√£o ambiental entre os munic√≠pios de Xique-xique e Gentio do Ouro, na regi√£o norte do Estado da Bahia. √Č alimentada por pequenas nascentes da regi√£o e pelas √°guas do S√£o Francisco que chegam por um canal de cerca de 20 km.

Em quatro d√©cadas, a lagoa secou apenas quatro vezes. A pen√ļltima delas foi em 2015. A √ļltima h√° duas semanas, quando deixou um rastro de cerca de tr√™s milh√Ķes de peixes mortos, segundo c√°lculo inicial do Ibama. “√Č um desastre ecol√≥gico”, resume Anivaldo de Miranda, presidente do Comit√™ da Bacia Hidrogr√°fica do Rio S√£o Francisco. Por ter √°guas tranquilas, mornas e protegidas, o lago √© considerado um dos principais “ber√ß√°rios” do Velho Chico. Ali, reproduzem-se grande parte das esp√©cies nativas de peixes do rio, desde o tradicional surubim at√© o pir√°, hoje considerado praticamente extinto na regi√£o do m√©dio S√£o Francisco.

“Os peixes desovam, os filhotes ficam l√° crescendo e um ano depois seguem para o rio em grande quantidade. Com a lagoa seca esse ciclo √© interrompido”, afirma Vanderlei Pinheiro, engenheiro de pesca e analista ambiental do Ibama.
Desta forma, o impacto não ficará restrito às 2.000 famílias de ribeirinhos que vivem em torno da lagoa. Todo o trecho do rio desde Minas Gerais até a barragem de Sobradinho, próximo a Juazeiro, na Bahia, será afetado.

DEVASTAÇÃO
A seca da lagoa √© resultado de uma conflu√™ncia de problemas h√≠dricos e clim√°ticos. O assoreamento √© o mais vis√≠vel: o lago que chegou a ter at√© seis metros de profundidade nos √ļltimos anos n√£o tem mais do que um metro. A devasta√ß√£o da vegeta√ß√£o nativa que deu lugar a pastos onde s√£o criados porcos tamb√©m fez a terra ceder em diversos pontos.

O problema é potencializado pela baixa vazão do rio São Francisco e pela seca de seis anos consecutivos que atinge a região Nordeste.

Na regi√£o de Xique-xique n√£o chove h√° seis meses, cen√°rio que fez aumentar a evapora√ß√£o do espelho d’√°gua da Lagoa Itaparica. Em condi√ß√Ķes normais, a lagoa tem uma evapora√ß√£o de 2.400 mil√≠metros de √°gua por ano. Mas recebe apenas 600 mil√≠metros de chuva. Sem a contribui√ß√£o de √°gua do rio S√£o Francisco, a conta n√£o fecha.

Além da degradação das margens da lagoa e do canal que a abastece, a pesca predatória também é um dos mais graves problemas enfrentados por Itaparica. Por ser uma região de reprodução, é proibido o uso de redes de arrasto.
Mesmo assim, a regi√£o foi por anos alvo de empres√°rios do ramo pesqueiro que arrendavam terras no entorno da lagoa para produ√ß√£o em larga escala. “Eles praticamente coavam a lagoa”, afirma Pinheiro, do Ibama. Segundo ele, o ideal √© que a lagoa atenda apenas a pesca de subsist√™ncia dos ribeirinhos.

SOS LAGOA
Diante da seca da Lagoa Itaparica e mortandade de milh√Ķes de peixes, um plano de a√ß√£o emergencial foi definido para tentar reverter o quadro. Batizado de “SOS Lagoa Itaparica”, inclui Minist√©rio P√ļblico, comit√™ de bacia, prefeituras e √≥rg√£os federais e estaduais. Est√£o previstas a√ß√Ķes de monitoramento da lagoa, al√©m de fiscaliza√ß√£o e mapeamento dos impactos causados √† popula√ß√£o ribeirinha.

O Ibama prop√īs a√ß√Ķes de recupera√ß√£o da vegeta√ß√£o e desassoreamento do canal que abastece a lagoa. As restri√ß√Ķes or√ßament√°rias, contudo, seguem sendo um obst√°culo para concretizar os projetos.

AÇÃO IMEDIATA
Sem uma a√ß√£o imediata, dizem os especialistas, estar√° comprometido o futuro da lagoa e do pr√≥prio rio S√£o Francisco, que vive uma de suas principais crises h√≠dricas de sua hist√≥ria. “A seca da lagoa √© grave, mas √© apenas um sintoma, uma consequ√™ncia de um problema muito maior”, diz a promotora Luciana Khoury, do N√ļcleo do Rio S√£o Francisco do Minist√©rio P√ļblico do Estado da Bahia.

Ednaldo Campos, do comit√™ de bacia do S√£o Francisco, cobra urg√™ncia nas a√ß√Ķes de revitaliza√ß√£o: “Se n√£o agirmos r√°pido, eventos como a seca da lagoa ser√£o cada vez mais recorrentes e traum√°ticos”.

Folha de S√£o Paulo – Jo√£o Pedro Pitombo


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